sábado, 3 de maio de 2014

Agradecimentos 1º de Maio

Caros companheir@s,

a Cia. Estável de Teatro, o Coletivo da Albertina e a Cia. Estudo de Cena agradecem mais uma vez a parceria, o carinho e a participação na II Celebração Teatral 1º de Maio. Estar junto e ver tantos parceiros engajados em seus trabalhos com certeza nos renova e nos faz celebrar nosso dia com especial alegria. Que novas e importantes trocas como essa se realizem mais vezes! Obrigado por fazerem esse dia acontecer!
Abraços!
Cia Estável de Teatro, Coletivo da Albertina, Companhia Estudo de Cena, Cia Antropofágica, Noisna Mala, Cena Livre, Cia Teatro Documentário, Buraco, Núcleo de Estudos Cynematográficos, Núcleo Pavanelli, Coletivo Cinefusão, Grupo Teatral Parlendas, Engenho Teatral, Adriano Antonio, Hayanne Oliveira e todos que vieram participar desse dia com a gente!


 
 



 


  


  

quinta-feira, 1 de maio de 2014

mostra no brasil de fato

Hoje saiu uma matéria no jornal Brasil de Fato sobre a II Celebração Teatral 1º de Maio. Confiram!

Celebração 1º de Maio apresenta trabalhos teatrais sobre o mundo do trabalho

Evento reunirá onze coletivos artísticos no Arsenal da Esperança, em São Paulo

30/04/2014

Por Eduardo Campos Lima

De São Paulo (SP)

Ocorre neste 1º de maio, no Arsenal da Esperança, em São Paulo, a II Celebração Teatral 1º de Maio, organizada pelos grupos Cia. Estável, Cia. Estudo de Cena e Coletivo da Albertina.

O evento, realizado pela primeira vez em 2013, reúne onze coletivos artísticos paulistanos, que apresentam peças, canções ou cenas relacionadas ao mundo do trabalho. “A ideia é que façamos algo para que essa data recobre sua potência crítica e não se torne só mais um feriado festivo, como se caracterizou em muitos espaços”, define Diogo Noventa, da Cia. Estudo de Cena.

Não foi difícil estimular os grupos convidados a fazer intervenções sobre a classe trabalhadora. “Todos os coletivos têm parcerias com movimentos sociais, como o MST, de forma que sua produção artística já contempla assuntos e formas de interesse dos trabalhadores”, explica Noventa.

A ideia de organizar a mostra nasceu no próprio Arsenal da Esperança, onde a Cia. Estável atua desde 2006 – e que também abrigou a Cia. Estudo de Cena, em 2013. O espaço, onde funcionou a Hospedaria dos Imigrantes, acolhe diariamente centenas de homens sem moradia, desde 1996.

Com os anos de trabalho conjunto, o Arsenal da Esperança e os coletivos teatrais desenvolveram uma relação produtiva, em que público e artistas partilham de perspectivas comuns. “Como esses grupos tratam de questões materiais da vida em suas peças, as pessoas que estão ali albergadas têm uma resposta muito interessante aos trabalhos. São desempregados, trabalhadores informais à margem do mundo do trabalho, talvez as pessoas mais afetadas pelo processo capitalista de exclusão – nem todas as plateias têm sua clareza”.

A I Celebração Teatral 1º de Maio venceu o Prêmio Cooperativa Paulista de Teatro de 2013, na categoria Mostras e Festivais. A Celebração não conta com nenhum tipo de financiamento, sendo organizada unicamente por iniciativa dos grupos, que mobilizam seus próprios recursos.

Programação
14h - Abertura com Companhia Estável, Companhia Estudo de Cena e Coletivo da Albertina
14h15 – Companhia Antropofágica - “Notas sobre Mahagony”
14h45 – Nóis na Mala – “Samba para Construção”
15h30 – Teatro Documentário – “Gracias a la vida que me ha dado tanto”
16h10 – Buraco d’Oráculo – “Canto Cenopoético”
16h35 – Coletivo da Albertina – “Especula-se”
18h –Núcleo de Estudos Cynematográficos – Filme “Ana”
18h20 – Núcleo Pavanelli - teatro de rua e circo – “Luta de Classes”
18h30 – Coletivo Cinefusão –“ Experimento #3 – O Trabalho nos fará dignos”
19h00 – Grupo Teatral Parlendas – “Intervenção Brazil zil zil”
19h30 – Companhia Estudo de Cena – “Cortejo de Quintino Gatilheiro, o Lampião da Mata”
20h20 – Engenho Teatral – “Teatro de Bolso”
“Mostra de Processos - Entre cada apresentação a Companhia Estável realizará números de sua pesquisa sobre Cabaré e Vaudeville”

Serviço
Arsenal da Esperança (rua Dr. Almeida Lima, 900 - Próximo a estação Bresser/Moóca do metrô).

Daqui a pouco, não percam!


quarta-feira, 30 de abril de 2014

prêmio cpt

A Cia Estável, junto aos companheiros da Estudo de Cena, receberam nessa segunda-feira o Prêmio Cooperativa de Teatro 2013 - Mostras e Festivais, pela I Celebração Teatral 1º de Maio, realizada em 2013. 


"Durante a noite de ontem (29) aconteceu a Festa de Entrega do Prêmio CPT 2013, que lotou a sala Carlos Miranda da Funarte. [...] Um ponto comum entre alguns discursos de agradecimento foram os protestos pela revogação do Decreto nº 54.948, publicado no Diário Oficial da Cidade de São Paulo no último dia 21 de março. O decreto, que vem sendo intensamente criticado, restringe a atuação de artistas de rua impedindo, por exemplo, apresentações próximas a monumentos tombados, pontos de ônibus e de metrô, além de exigir autorização prévia."
Mais nesse link. E fotos aqui.





Fotos: Paulo Fávari

terça-feira, 29 de abril de 2014

apoio à flaskô!


@s campanheir@s da Flaskô estão em campanha por 10 mil assinaturas por uma audiência no senado sobre seu projeto de lei para desapropriação da fábrica. Neste momento, estão solicitando a ajuda para ampliar a divulgação da campanha, pois já tem cerca de 1700 assinaturas e até 17 de junho para chegar as 10 mil. 

Quem ainda não assinou, bora dar uma força aos compas de luta!
Ajudem a divulgar!

A Flaskô é uma fábrica de embalagens industriais em Sumaré, próxima de Campinas/SP. Aqui, a empresa é administrada pelos próprios trabalhadores há mais de dez anos (desde junho de 2003), depois que os patrões decidiram paralisar todas as atividades e sonegar direitos e impostos. Nossa luta sempre foi por garantir os postos de trabalho e as funções sociais do espaço da fábrica, ou seja, para que seja de propriedade social.
Como parte das diversas iniciativas para que se alcance este objetivo, desde 2012 está tramitando no Senado um Projeto de Lei (PLS 257/2012) que, caso aprovado, declara "de interesse social para fins de desapropriação" a fábrica. O PLS já está há dois anos em tramitação, passou por diversas comissões e agora está na Comissão de Constituição e Justiça esperando ser discutido e sem previsões para designação de um relator.
Para não depender do interesse dos senadores em discutir o PLS, nós lançamos em março deste ano uma campanha de assinaturas on-line (link abaixo) e precisamos de pelo menos 10 mil adesões em 90 dias para que o senado seja obrigado a pautar nosso projeto de lei. (Isso pode ser feito por qualquer associação civil através desse instrumento da Comissão de Legislação Participativa foi criado em janeiro).
Ajude a Flaskô a seguir com a luta no Senado, pelo direito ao trabalho! Se perdermos essa oportunidade única de pautar o projeto, a Flaskô seguirá numa situação de insegurança e sob risco de fechar – acabando com os empregos, a produção e os projetos sócio-culturais que acontecem aqui. Não deixe isso acontecer!
O prazo vai até o dia 17 de junho: faltam 10 semanas.
Ajude a espalhar essa campanha!

 Acesse, assine (não esqueça de confirmar via e-mail) e compartilhe: 

  bit.ly/flasko10mil  

segunda-feira, 28 de abril de 2014

por que cantam os sabiás

Reflexão sobre a participação da Cia. Estável na I Feira Antropofágica de Opinião. Esse texto fará parte da próxima publicação da revista Bucho Ruminante, dos parceiros antropofágicos. 

Por que cantam os sabiás

Cinquenta anos após o golpe civil-militar de 1964, ainda diante do desmonte social, histórico e cultural no qual gerações inteiras foram ética e esteticamente educadas, um coletivo ampliado de artistas politicamente engajados tenta responder, com o que lhe restou de poesia, o que pensa do Brasil de hoje. Tarefa difícil, pois pensar o Brasil da atualidade é ter, no mínimo, de decifrar as estratégias de controle muito bem articuladas pelo atual regime democrático-popular-participativo. Embora a truculência e a brutalidade, tão bem representada pelas forças policiais e seus grupos de extermínio, nunca tenham abandonado as ruas e as paisagens latino-americanas, é pela cooptação e pelo convencimento que governo e capital - no balé nefasto da co-dependência - tentam apaziguar as tensões sociais oriundas da luta de classes.
Na esfera estética, tão distantes e tão próximos dos companheiros da Primeira Feira Paulista de Opinião de 1967, diferentes grupos de teatro, música e cinema procuraram dar forma à enorme complexidade sugerida pelo tema da II Feira Paulista de Opinião ou I Feira Antropofágica de Opinião.  Na disputa pelo simbólico usurpado da classe trabalhadora, uma rede foi tecida dentro de um espaço cultural – Tendal da Lapa - que também resiste há 25 anos. Isto não é pouca coisa. O evento, pelo modo como foi organizado pela companhia Antropofágica, já trazia em seu escopo artístico – tanto na forma como nos conteúdos – o caráter de luta e resistência contra a barbárie do capital. O encontro entre as gerações que lutaram contra a ditadura de 64 e as que foram educadas no desmonte que a mesma ditadura deixou como legado trouxe a história à tona e junto com ela, muitas questões. Observando, em separadamente, os trabalhos apresentados, dois pontos mereceriam, a priori, um debate ampliado. Um deles refere-se à clareza política e à potência estética da arte de esquerda diante da classe trabalhadora, sua real interlocutora. O outro se refere aos espaços onde esta interlocução se faz necessária. O que, por que e para quem, afinal, cantam os sabiás?
Enquanto isso, é preciso seguir, sim, estragando pelo menos um pouquinho a festa da direita, da pseudo esquerda e da pós-modernidade esmagadora. Dar nome aos bois - em um tempo que não ajuda a distinguir o coração de um latifundiário do rim de uma criança pobre - é o mínimo que se espera de quem resiste. Viva os “anacrônicos” de ontem e os de hoje. Os burgueses estão à mesa. É hora de devorá-los.  


Companhia Estável de Teatro – por Daniela Giampietro

domingo, 27 de abril de 2014

matéria/relato sobre o cordão da mentira

O Cordão da Mentira e a Desmilitarização – uma reflexão em 5 atos

POR THIAGO BRANDIMARTE MENDONÇA EM ABR 22, 2014 NA LABIRINTOS E TRINCHEIRAS
  
Este artigo foi escrito por Thiago B. Mendonça com a colaboração de Marco Escrivão para o livro ainda inédito “Desmilitarização da polícia e da política: uma resposta que virá das ruas” organizado por Givanildo Manoel e editado pela Editora Pueblo. 

ATO 1 – Concentração – o ontem e o hoje

1 de abril de 2014. O Cordão da Mentira, bloco carnavalesco de intervenção urbana, prepara-se para seu terceiro desfile. Dia da Mentira, dia do Golpe que instalou a Ditadura Civil-Militar no Brasil em 1964, completando 50 anos. Em frente ao antigo DOPS do carrasco Fleury, a primeira pergunta que vem a cabeça: por que lembrar o golpe se já comemoramos também quase 30 anos da redemocratização? O que faz 1.500 pessoas saírem para as ruas cantando sambas de luta contra a opressão? Por que este dia ainda nos traz tantos traumas?
Enquanto o Cordão esquenta as baterias, no carro de som respostas começam a ser traçadas. O mestre de cerimônia, em trajes de Zé Pilintra, relembra o museu de horrores: “Quem pensasse diferente podia ser fichado, preso, torturado, morto (e as coisas não aconteciam necessariamente nesta ordem). Quem mandava aqui era a turma do Fleury. Tinha o Romeu Tuma, senador até pouco tempo. Pachequinho, compositor do Samba da Vela. E tantos outros que ainda desfilam por aí.”
Alípio Freire, ex-guerrilheiro e ex-preso político no passado, militante e artista plástico no presente, fala do ontem e de hoje. Débora Silva, representante das Mães de Maio, grupo de mães que lutam para que se esclareçam os crimes cometidos pelo Estado na democracia, fala de hoje e de ontem. As continuidades são expressas em dor, em coragem, em luta. “Se houve democratização esqueceram de avisar a polícia militar!” brada a mãe de maio emocionando os presentes. Débora, Antígona moderna, afirma que uma mãe que luta pela memória do seu filho é maior que um Estado. As mães são a alma do Cordão e para elas os compositores do bloco já renderam sua homenagem:

“Eu já perdi a esperança, juventude
Eu já perdi minha luz, minha alegria
Resta o altar com o sorriso do meu guia
Meu menino tão suspeito pra vocês

Ele é meu anjo e eu rezo todo dia
Não é pra Deus, nem pra Santo, Ave Maria
É só pra ele trazer mais esperança
Dos pequenos renascerem na bonança

Eu já falei que não quero mais vingança
A guerra que eu quero é das almas dos meninos
O fogo que arda e e incendeia o rico imundo
E ilumine com sua chama, um novo mundo

Que em algazarra os guris assassinados
Possam voltar e cantar os chacinados
Que nosso sangue escreva nova história
E ocupe o esquecimento com memória” 
(Mães de Maio de Thiago B. Mendonça / Everaldo F. Silva / Selito SD) 
.
Justiça e memória de ontem e de hoje. O carnaval começa como canção de luta. Centenas de pessoas colocam sacos plásticos na cabeça, lembrando os crimes de Fleury, Romeu Tuma e sua gangue. 1 minuto de silêncio. 

ATO 2 – 3o Distrito – A higiene, os bons costumes e as pessoas de bem

O Cordão para em frente ao 3o distrito policial, na Boca do Lixo. Projeções de imagens do Esquadrão da Morte são vistas no prédio ao lado. Homens “da lei” aglutinam-se na delegacia, onde são obrigados a engolir as palavras de nosso guia, Zé Pilintra, lembrando aos foliões que ali naquela delegacia, na ditadura civil-militar, reinava Wilson Richetti, amigo do delegado Fleury, assassino de prostitutas e travestis. Richetti proibiu as garotas de programa de trabalharem. Quem desobedecia às ordens, poderia ser presa, torturada e morta, em nome dos bons costumes. Há mulheres que até hoje não tiveram suas mortes apuradas. Em 1979, depois do assassinato de uma prostituta e um travesti, um movimento de trabalhadoras da zona toma a Praça da Sé. Em plena ditadura um movimento de prostitutas e travestis derruba um criminoso, destituindo Wilson Richetti. Uma das líderes, Gabriela Leite, mais tarde criou a DASPU e se tornou a grande referência na luta pelos direitos das putas brasileiras. Zé Pilintra, o guia do cordão, evoca sua memória: “Gabriela se foi mas deixou saudade! Evoé Gabriela!”
Nas recentes movimentações de especulação imobiliária na região da Luz, nos governos José Serra e Gilberto Kassab, novamente as prostitutas voltaram a ser perseguidas e assediadas pela polícia. Gabriela certa vez declarou num filme sobre a Boca do Lixo: “Quando as pessoas querem revitalizar uma área histórica que tá ruim, eles querem expulsar as putas, expulsar os malandros, expulsar toda a cultura que tinha ali e criar uma nova coisa. Só que o que eu acho é que isso não adianta nada, porque as pessoas voltam. As pessoas sofrem, mas as pessoas voltam. Porque isso aqui tem uma cultura. Uma cultura da prostituição, da malandragem, da música, do cinema, que ninguém vai tirar deste pedaço. Ninguém. Nunca.”1  
A memória recente e a memória do passado, o ontem e o hoje. De um lado os populares. Do outro lado o discurso antigo de revitalização dos espaços, para torná-lo mais palatável à uma elite patrimonialista que vê o pobre como risco, como inimigo. Não somos uma nação. Tudo conspira para uma conciliação coagida entre uma minoria que manda e um povo que obedece. Na formulação magistral do filósofo Paulo Arantes “um Estado bifronte, de direito para os ‘integrados,’ e penal-assistencial para ralé.”2
Matanças, despejos, realocações, deslocamentos, opressão, massacres. A permanência da violência de Estado e seus vestígios nas ruas da cidade. Uma geografia da opressão: as ruas cheiram a sangue. A militarização garante a lógica do controle social. Eis os mandamentos da sagrada família dos proprietários brasileiros: “Não contestarás. Não lutarás. Não abandonarás sua condição.” Para ontem e para hoje o Cordão grita: é mentira! É o abandono deste lugar, um chamado para a luta:

“Você aí
Vendo o circo passar na janela
A versão corrompida na tela
Não convence o coração
Diz aí
Não ouviu falar em Mariguella
Nunca entrou numa favela
Prefere não dar opinião
É melhor começar a pensar
Numa nova saída
Naquele moleque sem lar
Nos trabalhadores sem terra
Minha gente sofrida

Entrar de cabeça na briga
É a pedida pra ganhar
De que lado está você?
De que lado? Eu quero ver!
Meu bloco vai cobrar” 
(Camarada Lampião de Renato Martins e Roberto Didio)

ATO 3 – Largo do Paissandu – a memórias dos homens pretos

Chegando ao Largo do Paissandu, o Cordão rende homenagem à memória dos homens pretos, vítimas preferenciais do Estado genocida brasileiro. Os herdeiros dos escravos carregam ainda a condição de homens descartáveis. Zé Pilintra, guia do cordão, lembra que a igreja do Rosário localizada ali, não é a original, expulsa pela especulação imobiliária de outra área central, mais nobre. A história não é coisa do passado: “Hoje novamente querem tirar os pretos e pobres do centro. A higienização e especulação imobiliária continuam juntas e misturadas ao genocídio da juventude preta. Relembramos pois, mais do que nunca, nossos antepassados.”
Neste trecho do trajeto, de armas em punho, a polícia militar faz sua primeira investida contra o cordão, mas é rechaçada pelos manifestantes que gritam pela desmilitarização.

“Só após seis horas chegou a polícia
Esmurrando e dando chutes na porta
Que coisa absurda, mas não fictícia,
Deu tremenda surra no Zé Perna Torta,
Que, por já ser finda a batalha à milícia gritou:
- Com o pobre ninguém se importa!
Outra vez não chegaram em hora propícia
Agora já é tarde, pois, Inês é morta!
Se Inês é morta, diga quem matou Inês!”
(Quem matou Inêz?  de Selito SD) 

ATO 4 – Mackenzie – a volta da repressão

O Cordão tem um tempo próprio. Nos intervalos de seus cantos e batuques, grupos teatrais se revezam para trazer mais uma camada de reflexão a partir de cenas curtas e números musicais. A estética ressignificando a política e ampliando seu universo simbólico.
O ato segue pacífico em direção à mítica rua Maria Antonia. Ao atravessar o Elevado Costa e Silva (ou Minhocão), sintomática homenagem ao ditador que promulgou o AI-5, centenas de militares da tropa de choque, alguns com armas em punho, passam a acompanhar o bloco. Duas semanas antes, uma famigerada tentativa de reedição da Marcha da Família de 1964 foi para as ruas para pedir um novo golpe aos militares. A polícia militar os acompanhava integrados. Eram saudados como parte da manifestação. A marcha era composta por cerca de 300 pessoas, sendo cerca de 100 deles neo-nazistas (ou integralistas). Muitos estavam armados, e possuíam algemas de plástico para prender opositores. A marcha foi marcada por brigas e agressões de neo-nazistas, sem nenhuma intervenção policial.
Duas semanas depois o desfil&scracho do Cordão da Mentira rechaça o golpe, seus entusiastas. O ato com 1500 pessoas não tem nenhum incidente. A polícia porém é outra. Ela oprime. Exibe suas armas. Mostra-se pronta a atacar.
Maria Antonia. 03 de outubro de 1968. A rua é palco de uma guerra entre fascistas do CCC apoiados pela polícia militar contra estudantes da USP, defendendo a democracia. Conflito que resultou na morte do estudante José Carlos Guimarães de 20 anos, no incêndio criminoso do prédio da Maria Antonia, e de forte repressão policial ao movimento estudantil que tomou as ruas para protestar contra o assassinato.
Maria Antonia, 13 de Junho de 2013. Uma nova batalha, desta vez, sem intermediários. A polícia militar ataca covardemente os manifestantes do 4o ato contra o aumento das passagens de ônibus. Mais uma vez a Maria Antonia testemunha o legado da violência do Estado. A História se repete. 1 de abril de 2014. Sobe pressão da polícia os foliões do Cordão cantam o Frevo da Falha.

“Mas hoje ocupando a praça
Sem juiz, censor ou editor
Valendo mais que mera errata
A gente desmascara
Convertido e enganador
Para de mentir canalha
Para admitir a “falha”
Para de omitir que a dita foi dura demais
Para de fingir que é justa
Para de fugir do Ustra
Para difundir a farsa impressa nos jornais” 
(Frevo da falha de Douglas Germano e Everaldo F. Silva)

ATO 5 – No coração de Higienópolis – Tradição, família e propriedade

A polícia tenta cercar o Cordão. Em torno do Cordão formam-se dois cordões: o primeiro de policiais militares. O segundo de manifestantes para defender os cidadãos da polícia. A situação parece absurda. No cerco, homens armados esperam a hora de atacar a festa. Do lado de dentro, sem armas, centenas de pessoas, jovens e velhos militantes foliões, defendem de braços dados os demais manifestantes. Para quem não visse os policiais poderia ser uma ciranda. Uma festa. E era. No Cordão não se diferencia festa e luta. O ódio dos militares, formados para atacar seus inimigos é combatido pela festa dos cidadãos, comprometidos em mudar o mundo. Cantando a “Batalha Final de um Bravo Brigante’ o Cordão segue em frente quilombolado.

“Nos metros a frente a fria coluna
Por entre os escudos eu vejo uma fresta
E sigo em frente, pois pouco me resta
Sou só uma peça na grande comuna
Reúna seus homens, reúna, reúna…
Novos dias me acenam do lado de lá
Pouco me resta, já não tenho sono
Já não tenho medo, já não tenho dono
Só tenho a vontade de continuar
Com sangue no rosto e brilho no olhar.
Comuna e coluna postadas bem perto
Lá da barricada já fiz o que pude
Com tripa de mico e bolinha de gude
Por entre os escudos achei descoberto
Grosso supercilio que deixei aberto
Montado em exemplo de gente da gente
Não mais me abala a mais cruel cena
Nem mais uma bala fará com qu’eu tema
Seja de borracha, seja chumbo quente…
Por entre os escudos eu miro um temente
Vou partir pra riba, no saci virado
Vou partir na fé de meu santo e meu povo
Se eu cair… Levanto e me atraco de novo
Vou pela quebrada, vou “quilombolado
Por entre os escudos… Zumbi do meu lado.
Se eu cair… Levanto e me atraco de novo.” 
(Batalha final de um bravo Brigante de Serginho Poeta/Everaldo F. Silva/Selito SD)

E por entre as câmeras de vigilância e a movimentação frenética das equipes de segurança, o bloco invade o coração de Higienópolis. Para em frente a TFP, organização fascista fundada em 1960 pelo integralista Plinio Correia de Oliveira. A TFP, Tradição Família e Propriedade, é uma organização católica que defende a tradição deles, a família deles e a propriedade deles. Sua única proposta é combater a esquerda. Há alguns anos planeja treinar militarmente sua pequena orda de fascistas para atacarem movimentos sociais. A TFP é parte de conjunto maior de grupos e organizações que apoiaram o golpe civil-militar. É na frente da TFP que acontece o último escracho do cordão. Nas paredes ao lado, cenas de “Saló e os 120 dias de Sodoma” de Pasolini são projetadas, lembrando o fascismo abjeto ainda presente. Os empresários que financiaram e se beneficiaram do golpe são citados.
A polícia tenciona e ameaça os manifestantes. Parece pronta a atacar. Até que um velho e aparentemente frágil militante, com sua bengala, os contêm. Sem força, sem palavras. Com a imponência de sua presença. É uma das cenas mais belas já presenciadas por este escriba. O velho militante impõe respeito portando apenas sua cotidiana bengala à toda uma tropa de jovens policiais treinados para trucidar manifestantes. Aquela imagem mítica do ancião abate a moral da máquina de moer ossos do Estado. Volto emocionado com esta imagem do mestre ancião Alípio Freire. Carrego comigo, carregamos todos que ali estiveram, a esperança renovada de uma mudança. Em 2015 o Cordão voltará as ruas. Até lá outras batalhas serão travadas. E se em algum momento vier o desânimo lembraremos do que a Mãe de Maio Débora nos ensinou: “os nossos mortos tem vozes”. 

 NOTAS
1 Depoimento de Gabriela Leite para “Santa Efigênia e seus pecados” Documentário de 26 min. dirigido por Thiago B. Mendonça
2 1964, o ano que não terminou in O que resta da ditadura. 

Fonte: http://zagaiaemrevista.com.br/o-cordao-da-mentira-e-a-desmilitarizacao-uma-reflexao-em-5-atos/#sthash.xC2BntNv.dpuf

sábado, 26 de abril de 2014

II celebração teatral 1º de maio

Tá chegando a II Celebração Teatral 1º de Maio, que irá acontecer lá na nossa sede, Arsenal da Esperança. Vários parceiros estarão presentes mostrando um pouco de seu trabalho e a Cia. Estável fará entre as apresentações uma mostra de processo de seus estudos das formas de agitprop Cabaré Vermelho e Vaudeville. 

sexta-feira, 25 de abril de 2014

teatro de rua em osasco!

Agora em Maio acontece a mostra de teatro de rua "Cena Vermelha", organizada pelos parceiros da Cia Teatro dos Ventos! A Cia. Estável estará presente!
Mais no face deles!


terça-feira, 22 de abril de 2014

indicações ao prêmio cpt

A Companhia Estável foi indicada pelo seu trabalho com a Exceção e a Regra nas categorias "dramaturgia" e "trabalho apresentado na rua". Também indicada junto à Estudo de Cena na categoria "mostras" pela Celebração Teatral 1º de maio de 2013.

Mais informações na página do site da Cooperativa.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

viagem ao mato grosso do sul

Hoje, o Jornal Diário MS lançou uma matéria sobre a viagem da Cia. Estável ao Mato Grosso do Sul. Confiram o texto:

"Grupo de SP apresenta espetáculo em Dourados, 17 de abril de 2014

Contemplada pelo Prêmio Myriam Muniz de Teatro de 2013, a Cia. Estável de Teatro, grupo paulistano que desenvolve há treze anos uma intensa pesquisa na área teatral, circula com o espetáculo ‘A Exceção e a Regra de Bertolt Brecht’ com direção de Renata Zhaneta pelas cidades Campo Grande e Dourados no mês de abril.

Na capital as apresentações acontecem nos dias 24 e 26 no Teatro de Arena da Orla Morena e Praça Ari Coelho, às 20h e 11h, respectivamente. Em Dourados a companhia se apresenta segunda-feira que vem, às 16h30, no Teatro Municipal e terça-feira, às 19h, na UFGD – Unidade II Faculdade de Comunicação Artes e Letras (Facale). Todas as atividades são gratuitas.

Tendo o teatro épico, e sua relevância social e política, como principal eixo de seus estudos estéticos, o grupo vem nos últimos anos buscando imprimir em sua prática novas possibilidades de interlocução com o entorno imediato.

Dessa maneira, vem desenvolvendo há sete anos uma intensa pesquisa junto aos acolhidos de um albergue localizado na região da Mooca em São Paulo. Uma, dentre outras tantas ações resultantes desta experiência, foi a montagem do espetáculo a Exceção e a Regra, de Bertolt Brecht, cuja encenação pressupõe o espaço da rua como meio de ampliar o alcance político e popular do texto.

Desde 2011, o grupo realiza uma intensa circulação com o espetáculo por espaços não convencionais, praças e sedes de outros coletivos teatrais na cidade de São Paulo e no interior do Estado. O resultado mais importante no que concerne à devolutiva do público espontâneo foi a constatação da relevância e da atualidade de Bertolt Brecht no atual panorama sociopolítico brasileiro. Ao colocar em perspectiva questões pertinentes à sociedade, a obra brechtiana oferece um importante instrumento para a compreensão das atuais crises do capitalismo e de suas inevitáveis consequências para a ordem mundial."


terça-feira, 15 de abril de 2014

segunda-feira, 14 de abril de 2014

apresentação em são miguel

Olha só um pequeno registro da apresentação da cia. na mostra dos parceiros do Buraco d'Oráculo, que organizaram a VIII Mostra de Teatro de São Miguel.

Fotos: Sandra Santana





Mais fotos no nosso Face!

sexta-feira, 11 de abril de 2014

hoje cia. estável em são miguel

Hoje a Cia. apresenta o espetáculo "A exceção e a regra" na VIII Mostra de Teatro de São Miguel Paulista.

A Exceção e a Regra
17 horas
Duração: 70 min.
Local: Praça do Casarão - Vila Mara (ao lado da estação de trem Vila Mara (CPTM). Jardim Helena.

Sinopse - Uma pequena caravana participa de uma corrida em direção à cidade de Urga. A expedição que chegar primeiro ganhará como prêmio uma concessão para explorar petróleo. Durante a viagem, vemos exposta a relação entre explorador e explorado, assim como os mecanismos que legitimam o abuso de um e a submissão do outro.

Ficha técnica - Autor: Bertolt Brecht. Tradução: Alexandre Krug. Direção: Renata Zhaneta. Direção musical: Sérgio Zanck. Atores: Andressa Ferrarezi, Daniela Giampietro, Juliana Liegel, Luiz Calvo, Maurício Hiroshi, Nei Gomes, Osvaldo Pinheiro, Sandra Santana, Sérgio Zanck, Paula Cortezia e Zeca Volga. Músicas: Osvaldo Hortêncio e Sérgio Zanck. Produção: Mariza Pinto, Andressa Ferrarezi e Nei Gomes. Cenário e adereços: Valter Mendes e Dani Abreu. Figurino: Kath Ulian. Maquiagem: Dani Ferrarezi

O grupo - A Companhia Estável existe desde 2001. Seu primeiro trabalho foi com a ocupação do Teatro Flávio Império, no bairro de Cangaíba, periferia de São Paulo; depois, veio a residência artística na casa de acolhida Arsenal da Esperança, no Brás, a partir de 2006. Os 13 anos de história são marcados pela pesquisa sobre formas políticas de teatro e pela busca por um trabalho totalmente coletivo, procurando espelhar na organização interna do grupo a crítica contra-hegemônica, formulada em cena.

sábado, 5 de abril de 2014

cia. no cordão da mentira

A cia. participou nesta terça-feira do ato do Cordão da Mentira. Além de integrar a longa caminhada e festa, com paradas estratégicas em frente a órgãos que de alguma maneira fazem parte da história da ditadura militar e de seus desdobramentos nos dias atuais, a Cia. realizou uma intervenção estético-política em frente à TFP. Apresentamos uma das cenas de um estudo anterior sobre o Vaudeville, que se tratava justamente da prática constante dos desaparecimentos políticos da época da ditadura (e até hoje...). E cantamos também uma das músicas do espetáculo A Exceção e a Regra, que fala sobre a Justiça ou a falta dela, adaptada da peça "Mutirão em Novo Sol", de 1962, escrita coletivamente por Nelson Xavier, Augusto Boal, Hamilton Trevisan, Modesto Carone e Benedito M . Araújo. 

Segue a letra da canção e algumas fotos do dia:

CANÇÃO DA JUSTIÇA QUE TARDA MAS NÃO VEM

A justiça tarda, tarda mas não falha
Mas, se a fome espera, espera nunca falha
A justiça tarda, tarda porque é cega
Anda devagar, senão escorrega

Quem precisar justiça
Tem muito que se aprumar
Tem que ser rico, ser dono
E ter tempo pra esbanjar

Quem precisar justiça
Não pode nem trabalhar
Não pode ficar doente
Ter filhos pra alimentar

A justiça tarda porque não tem pressa
Mas quem tiver pressa é quem se atrapalha
A justiça tarda para o João Ninguém
Se a lei é safada, tarda mas não vem.


segunda-feira, 31 de março de 2014

VIII Mostra de Teatro de São Miguel Paulista

Olha só! Tá chegando a VIII Mostra de Teatro de São Miguel Paulista, organizada pelos parceiros do Buraco d'Oráculo! A Cia Estável estará presente! 
Confiram a programação completa aqui.

O teatro de rua invade a Zona Leste com 12 espetáculos, além de intervenções circenses, na 8ª edição da Mostra realizada pelo Buraco d’Oráculo. Cultura e diversão ao ar livre!

Local: Praça do Casarão
Vila Mara (ao lado da estação de trem Vila Mara (CPTM). Jardim Helena. SP/SP
De 4 a 13 de abril - sexta a domingo - 15h30 e 17h (ou 19h)
Grátis (espetáculos ao ar livre). 
Recomendação: Livre

domingo, 30 de março de 2014

ato do cordão da mentira

Nessa terça, 1 de abril, acontecerá o ato do "Cordão da Mentira", com concentração a partir das 17h30 no Largo General Osório (próximo à Estação da Luz) - em frente ao Antigo DOPS. A Cia. Estável estará presente!

"Samba, batucada e escracho popular nas ruas do centro de São Paulo. 

TEMA: 64+50: QUANDO VAI ACABAR A DITADURA CIVIL-MILITAR?

Convidamos todxs a participar deste rolezinho sambístico, para ocupar as ruas com a batucada da nossa 2a abolição. Neste dia primeiro de abril, façamos um encontro de nossas revoltas contra uma ditadura que permanece. Tragam para as ruas os símbolos de sua contestação. Anistia aos torturadores? Homenagem aos carrascos? Militarização das instituições democráticas? Mídia carniceira e golpista? Educação pra ler e calcular sem contestar a realidade? Saúde para mortxs-vivxs? Desenvolvimento consumista sem vida? Extermínio dos povos indígenas? Assassínio racista e encarceramento em massa da juventude periférica? NUNCA MAIS! Mostremos que quem resiste, vive!

É por essas razões que teimaremos em levar para todos os espaços as canções de nosso Cordão e com o nosso canto ocupar as ruas.

As ruas são pra lutar e quem não luta dança!

Cinquenta anos se passaram após o golpe civil-militar de 1964. Apesar de alguns esforços valiosos, nenhum responsável foi julgado pelos crimes cometidos. E foram muitos: torturas, extorsões, sequestros, assassinatos em massa de indígenas e camponeses, desaparecimentos perpetrados pelo Estado e pelos tentáculos econômicos do capitalismo.

Brasil maravilha, dos "90 milhões em ação" na grande festa popular que é o futebol. Cinquenta anos se passaram, e pouco deste cenário antigo mudou. 2014: Ano de Copa e violência repressiva. Eis o que nos aguarda nas ruas, violadas pelas novas leis de exceção padrão FIFA.

Se for para comemorar, que seja pelos que combateram e combatem contra um passado que não cansa de se repetir. E carnavalizemos... festa que inverte os sinais.

Por isso, neste 01 de abril, o Cordão da Mentira cantará o passado e o presente que vale a pena: da teimosia dxs guerreirxs, dxs indignadxs, dxs irreconciliáveis. Levaremos para as ruas os sambas-luta, as alegorias da história, os estandartes dos que dizem "Não!".

O ANIVERSÁRIO É DELES, MAS A RUA É NOSSA!"

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

cia. estável na I feira de opinião antropofágica




Nesse sábado, a Cia. Estável apresentou na I Feira de Opinião Antropofágica uma das coreografias criadas na opereta "No Mundo Como Gaélicos". A música é uma paródia da "Era de Aquarius" e responde à pergunta feita pelos parceiros: "O que pensa você do Brasil de hoje?".
Confiram a letra! E em breve postamos as fotos.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

estável recebe

Neste final de semana, a Cia. Estável recebe novamente os parceiros da Estudo de Cena com a peça A Farsa da Justiça. Domingo tem também o Coletivo da Albertina apresentando o trabalho Especula-se.

Venham ver!

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

cia. estável no sesc

A Cia. Estável integrará a Mostra Sesc de Teatro de Rua.

A Exceção e a Regra
SESC Vila Mariana
27/09, 6ªf, 20h
Grátis

terça-feira, 10 de setembro de 2013

cia. estável no acre

Confiram o clipe que o companheiro Diogo Noventa fez com as fotos da nossa apresentação na Mostra de Teatro e Floresta do Vivarte, no Acre.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

sexta-feira, 26 de julho de 2013

matéria do brasil de fato

O companheiro Eduardo escreveu uma linda matéria sobre a Cia. Estável para o jornal Brasil de Fato:


Cia. Estável completa 12 anos de teatro e coletivismo radical
2013 - 16:13 — Michelle


Amadurecido por mais de uma década de luta, grupo trabalha com outros coletivos artísticos para debate e luta por políticas públicas, além de somar-se às diversas lutas do teatro de grupo paulista

02/07/2013
Eduardo Campos Lima
de São Paulo (SP)

A Companhia Estável de Teatro completa, em 2013, 12 anos de pesquisa sobre formas políticas de teatro e de buscas por um trabalho radicalmente coletivo, procurando espelhar na organização interna do grupo a crítica contra-hegemônica formulada em cena.
O coletivo tem suas origens na turma que se formou em 1997 na escola de teatro da Fundação das Artes de São Caetano do Sul. Após um período vinculado à instituição, o grupo tornou-se autônomo e, em 2001, inscreveu-se no programa de ocupação de teatros distritais da prefeitura de São Paulo, sendo selecionado para se instalar no teatro Flávio Império, em Cangaíba.
Na fase inicial, a Cia. Estável fazia uma investigação da commedia dell’arte – forma teatral que se criou em feiras e mercados da Itália, baseada em personagens tipificados e roteiro simplificado (que pode variar a cada apresentação) e guarda parentesco com o teatro de rua e o circo. A linguagem cômica popular, marcante na peça Os Menestréis, consolidou-se como perspectiva de trabalho do grupo, sendo fundamental nas encenações seguintes, A Incrível Viagem, Flávio Império, Uma Celebração da Vida e Quem Casa Quer Casa.
O trabalho no teatro Flávio Império incluía oficinas de formação para adultos e crianças. Esse contato contínuo com a comunidade garantiu que o público voltasse a frequentar o espaço. “Quando começamos a ocupar o Flávio Império, era preciso convencer as pessoas da região a assistir, mesmo com apresentações gratuitas. Conseguimos reverter a situação muito rapidamente, com o trabalho continuado no entorno”, recorda a atriz Daniela Giampietro.
Os artistas precisaram usar parte dos recursos obtidos com o projeto para sanar os diversos problemas com a estrutura do teatro. “Não havia manutenção. Muitos assentos estavam quebrados e, quando chovia, partes do telhado caíam na plateia”, lembra a atriz Andressa Ferrarezi.
Em 2002, o grupo foi contemplado na primeira edição do Programa Municipal de Fomento ao Teatro. Em julho de 2004, estreia a peça O Auto do Circo, criada a partir da dramaturgia de Luís Alberto de Abreu e dos estudos da historiadora Ermínia Silva sobre a arte circense no Brasil.
Precariedade e marxismo
O ano de 2005 foi marcado por uma série de dificuldades. A trupe não conseguiu obter recursos e acabou deixando o espaço que ocupava. Ao longo do ano, os artistas mantiveram apresentações em outros teatros distritais.
No ano seguinte, o coletivo travou contato com o Arsenal da Esperança, espaço onde funcionava a Hospedaria dos Imigrantes e que, desde 1996, acolhe diariamente centenas de pessoas sem moradia. Acabaram se instalando lá, em uma lona armada dentro da área, o que acarretou profundas transformações em seu trabalho e em sua organização.
“Inicialmente, tentamos transpor para o Arsenal da Esperança nossa pesquisa sobre o nomadismo circense. Entretanto, as situações-limite vivida pelas pessoas que lá são acolhidas exigiu que tivéssemos um outro olhar”, explica Giampietro. Procurando aprofundar estudos que dessem conta da realidade encontrada no novo espaço – e também das contradições mais amplas da vida sob o capitalismo –, a companhia se aproximou do educador social Luís Scapi e do marxismo. “Isso mudou bastante a cara do grupo. Passamos a nos organizar da forma mais horizontal possível, procurando não mais reproduzir a divisão social do trabalho que estávamos criticando em cena”, afirma Giampietro.
Sem uma figura de diretor a centralizar a companhia, foi estabelecida uma estrutura radicalmente igualitária, em que todos pertencem ao núcleo artístico e também desempenham tarefas técnicas – que deixaram de ser terceirizadas, como é comum –, compartilhando igualmente os recursos obtidos. Os trabalhos passaram a ser divididos em núcleos – de direção, de dramaturgia ou de música, por exemplo –, podendo cada um deles ser coordenado por um parceiro de fora do grupo, convidado para um projeto específico.
Essas transformações tiveram como contrapartida cênica a peça Homem Cavalo & Sociedade Anônima, construída em conjunto com os moradores do Arsenal da Esperança e a partir de suas experiências. “As cenas de improvisação para criação da dramaturgia eram feitas com os moradores, de modo que eles interferiam nelas e até as dirigiam. Foi uma potência para nosso trabalho estético”, conta Andressa Ferrarezi.
A peça estabelece, a partir da fábula sobre um “homem cavalo” que o título menciona, um panorama da vida degradada pelo capitalismo avançado, em seus desdobramentos nas esferas do trabalho, moradia e consumo.
O projeto SobrePosições, que veio a seguir, deu continuidade ao trabalho do grupo no Arsenal da Esperança. “A ideia era tornar mais direta a relação com os acolhidos pelo Arsenal, de modo a criar um campo de interlocução mais produtivo”, define Daniela Giampietro. A trupe manteve os estudos sobre materialismo dialético e a exploração do trabalho, ao mesmo tempo que aprofundava a pesquisa em teatro épico.
Em 2010, foram ampliadas as oficinas de teatro no Arsenal, com duração de três meses – mas organizadas de tal modo que pudessem ser aproveitadas por pessoas que delas participassem durante um único dia; tal formato foi desenvolvido para dar conta da alta rotatividade de acolhidos.
Teatro e política
A busca por formas teatrais que pudessem materializar as contradições da realidade social levou o coletivo à peça A Exceção e a Regra, do teatrólogo alemão Bertolt Brecht. O texto esmiúça as relações entre empregado e padrão, este último envolvido em uma disputa pela concessão de uma área de exploração de petróleo, e o amparo que a opressão do trabalho encontra na esfera jurídica. “A partir do texto, fizemos um exercício com os acolhidos que gerou um debate profícuo”, lembra Giampietro.
O grupo decidiu encenar a peça, dividindo-se em dois núcleos, cada um com um diretor. A exigente dinâmica de trabalho gerou uma crise – e a saída de três integrantes. Em 2012, o coletivo se reorganizou, com a entrada de quatro novos membros. “O teatro de grupo é marcado pela precariedade. Todas essas dificuldades de sobrevivência dos grupos advêm desse quadro”, aponta Ferrarezi.
Permaneceu o trabalho com A Exceção e a Regra, embora muito transformado pelos influxos dos novos artistas. Ao mesmo tempo, nasceu o projeto Desterro – Poéticas Vermelhas, cuja dimensão política volta-se à questão da gentrificação na cidade de São Paulo – processo de especulação imobiliária por meio do qual áreas do território urbano tradicionalmente ocupadas por trabalhadores passam a ter preços mais altos, o que resulta na expulsão dos moradores tradicionais para regiões mais afastadas. “Em nosso dia a dia no Arsenal, percebemos os efeitos desse processo, já que convivemos com suas vítimas”, conta Giampietro.
Para lidar com o tema da gentrificação, o grupo procurou trabalhar com as doze formas do teatro de agitação e propaganda (agitprop) desenvolvidas no período da Revolução Russa (1917) e na Alemanha dos anos 1920 – gêneros como o jornal vivo, que se baseia na encenação de notícias, e o cabaré vermelho, que adapta a antiga forma de teatro musicado para tratar de assuntos revolucionários. A cada uma das formas corresponde uma cena, dirigida por um coordenador convidado.
O trabalho nasceu de um intercâmbio entre a Estável e grupos parceiros, que se uniram, no ano passado, para estudar as formas de agitprop e fazer exercícios com elas, partindo do tema das “Diretas Já”. “Temos uma relação permanente com diversos grupos de teatro contra-hegemônico, com os quais nos articulamos para lutas coletivas e desenvolvemos projetos paralelos”, explica Daniela Giampietro.
Há cerca de três anos, a Cia. Estável integra o Movimento de Teatro de Rua (MTR), instância de organização dos coletivos artísticos para debate e luta por políticas públicas, além de somar-se às diversas lutas do teatro de grupo paulista. “Desde que encenamos Homem Cavalo, também estreitamos os laços com o MST e movimentos de moradia”, conta Giampietro. O grupo, além disso, é pioneiro nas apresentações artísticas na fábrica ocupada Flaskô. Assim a Cia. Estável vai aprofundando sua perspectiva de trabalho crítico e coletivo – e ampliando para outros grupos seu horizonte de transformação social. (Saiba mais em: territorioestavel.blogspot.com)


Trecho final da peça Homem Cavalo & Sociedade Anônima
Junto com centenas de cavalos selvagens, o jovem homem livre galopava por campos verdes sentindo a brisa fria da aurora.
Nunca soube ser livre. Escolher caminhos era coisa nova. Mas, teve a sensação de ser muitos e a confiança de estar certo.
Em campo aberto, em mata virgem, em riacho limpo molhou o focinho, junto com os outros e chorava de alegria e prazer a cada galope.
Um grito humano, e não de cavalo, cortou os corações da tropa que avistou a primeira cerca de arame farpado.
Correram pra longe dali, queriam campos livres. Queriam campos livres e encontraram uma placa: proibido passar! Meia volta, e trotaram até um pedágio numa rodovia.
Fugiram desesperados, num galope forte cheio de suor e músculos. Correram e só pararam com o choque diante da enorme porteira de ferro. O homem cavalo percebeu que os campos livres estavam depois da cerca. Afastou-se e deu um coice na porteira como um soco de mãos grossas no rosto cínico do senhor doutor patrão. A porteira caiu, ensanguentada. Ergueu-se junto de outros sobre duas patas. Entendia mais das coisas. Não havia pra onde correr.
Ele não era um animal.

terça-feira, 16 de julho de 2013

cia. estável recebe buraco d'oráculo

Essa semana os parceiros do grupo Buraco d'Oráculo se apresentarão no Arsenal da Esperança com seu novo espetáculo Ópera do Trabalho.



Ópera do Trabalho, Buraco d'Oráculo
Dias 20 e 21 de Julho, 19h.
Arsenal da Esperança - Rua Dr. Almeida Lima, 900 - Estação Bresser-Mooca do metrô
Espetáculo Gratuito.
Informações: 98152-4483
Atenção: em caso de chuva, não haverá apresentação.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

nova temporada da exceção e a regra em sp


Temporada e apresentações:
05, 12, 19 e 26 de julho (Sextas-feira) às 16h.
Local: Praça da República, próximo ao Coreto.
Em caso de chuva não haverá apresentação.
Telefone: (11) 98121-6554 (Claro)

06 e 07 de julho (Sábado e domingo) às 19h.
Engenho Teatral - Endereço: Rua Monte Serrat, 230 - Clube escola do Tatuapé (Metrô Carrão) - São Paulo - SP
Telefones: (11) 2092 8865 – 98121-6554 (Claro)

http://engenhoteatral.wordpress.com/